quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Pedro Abrunhosa: ''Momento''



Pedro Abrunhosa: ''Momento''

Uma espécie de céu,
Um pedaço de mar,
Uma mão que doeu,
Um dia devagar.
Um Domingo perfeito,
Uma toalha no chão,
Um caminho cansado,
Um traço de avião.

Uma sombra sozinha,
Uma luz inquieta,
Um desvio na rua,
Uma voz de poeta.

Uma garrafa vazia,
Um cinzeiro apagado,
Um Hotel numa esquina,
Um sono acordado.
Um secreto adeus,
Um café a fechar,
Um aviso na porta,
Um bilhete no ar.

Uma praça aberta,
Uma rua perdida,
Uma noite encantada
Para o resto da vida.

Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.

Uma estrada infinita,
Um anúncio discreto,
Uma curva fechada,
Um poema deserto.
Uma cidade distante,
Um vestido molhado,
Uma chuva divina,
Um desejo apertado.

Uma noite esquecida,
Uma praia qualquer,
Um suspiro escondido
Numa pele de mulher.

Um encontro em segredo,
Uma duna ancorada,
Dois corpos despidos,
Abraçados no nada.
Uma estrela cadente,
Um olhar que se afasta,
Um choro escondido
Quando um beijo não basta.

Um semáforo aberto,
Um adeus para sempre,
Uma ferida que dói,
Não por fora,
por dentro.

Pedes-me um momento,
Agarras as palavras,
Escondes-te no tempo
Porque o tempo tem asas.
Levas a cidade
Solta no cabelo,
Perdes-te comigo
Porque o mundo é um momento.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Carta, palavras, três vezes vida.

I

Menos lobos, caperucita. Agora é um tempo sem passado nem futuro. Os limites do eu são uma criação artificial e fictícia. Nada do que se resigna é o único e absoluto potencial da vida. Toda ideia é um caos permanente que se reconstrói e se degrada num continuum ad infinitum. Seguir um caminho é perder-se no abismo. A liberdade provém da ausência de sendeiros, de ideias, de formas. No silêncio toda beleza preexiste. Nada do que o eu crê é verdadeiro.

A vida só pode ser aquilo que se descobre, humildemente.

Cuido-me. Cuida de mim a vida, esse mistério, eu. Algumas vezes, também, o meu corpo cuida de mim, mesmo agora, na doença mais necessária.

Cuida de ti, liberta a palavra da vida.

II

Integração e desintegração é o movimento da vida, essa luz que permanece na diversidade das formas, essa luz que se desenvolve.

Há uma alegria verdadeira em cada instante, uma alegria humilde reconhecendo-se, descobrindo-se.

Abertas as palavras, o único modo da vida é esse reconhecimento.

Cuidar-me? Talvez não haja nada que cuidar. Só descobrir é.

O dia é luminoso. Não existem guerras.

Vejamos o que uma flor pode fazer no teu rosto:

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III

uih uih uih...

dizes-me "obrigado" tu? ...é tão lindo o feminino linguístico, e tu que prescindes do seu uso... que mágoa...!

que língua é essa?

contudo, abandonas a terceira pessoa para um tratamento direto.

vive-te. desculpa este mandato, esta imposição.

acompanha-me um sol de outono, uma camisa lilás, uma bronquite reparadora.

as moças mais bonitas são as que falam em Galego.